Libertámos as águias

Prosseguimos o seguimento das 8 águias-pesqueiras libertadas na passada segunda-feira. Ainda não são assíduas às refeições, tal como ocorreu no ano passado nos primeiros dias após a libertação, mas ontem ao final da tarde visualizámos 7 em simultâneo em azinheiras, poisos e alimentadores. Algumas iniciaram já movimentos exploratórios das imediações, mas depois de se afastarem, regressam ao local de libertação onde podem alimentar-se nas plataformas artificiais nos peixes colocados por nós.
Este ano, as águias aparentam estar mais tranquilas que as do ano anterior. Constatámos este facto ainda dentro da torre de hacking e continuamos a verificá-lo quando nos aproximamos de carro para fornecer alimento ou observá-las de um ponto afastado. A maior parte vocaliza à nossa chegada, mas permanecem no local sem fugir.
Talvez sejamos nós que estamos também mais tranquilos com a experiência que adquirimos no ano passado.

águia a alimentar-se

As águias voltaram!

14 de julho 2012 – chegaram hoje as águias da Finlândia. As recém-chegadas vão juntar se ao grupo de juvenis suecos que aterrou na Portela há apenas quatro dias.
Repete-se a experiência do ano anterior. O projeto reintrodução da águia pesqueira em Portugal entra assim no 2º dos cinco anos programados.

Desenvolvido pelo Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos (CIBIO), da Universidade do Porto, e financiado pela EDP, este programa visa recuperar esta espécie, em tempos comum na costa portuguesa.

 

Desafio: reverter perdas de biodiversidade

Com o desaparecimento dos últimos indivíduos reprodutores em 2002, a possibilidade de recuperação natural da população portuguesa de águias-pesqueiras seria muito improvável. Apesar disso, Portugal mantém condições de habitat muito favoráveis para a espécie, incluindo não só a costa rochosa que constituiu o seu último reduto como também algumas zonas húmidas estuarinas e albufeiras de barragens.
A recuperação da águia-pesqueira nestas áreas é possível. O processo passa necessariamente pela colheita de indivíduos em populações dadoras onde a espécie não corra risco de extinção e pela posterior transferência e libertação em locais favoráveis. Com isto, será possível assegurar a criação de um núcleo reprodutor inicial, a partir do qual se pode promover a recolonização progressiva das áreas históricas de ocorrência da espécie.
O processo implica a transferência de aves juvenis, para que a habituação ao local de libertação seja mais facilitada. As transferências serão efetuadas de países escandinavos, envolvendo cerca de 10 aves por ano durante um período mínimo de 5 anos. Tal como no ano passado, as transferências ocorreram em Julho. A libertação far-se-á, de forma faseada, durante o mês de agosto.
Com esta iniciativa pretende-se demonstrar que é muitas vezes possível reverter perdas de biodiversidade, desde que sejam adotadas ações adequadas e promovida a compatibilização das atividades humanas com a conservação de espécies sensíveis e ameaçadas.
O apoio da EDP a esta iniciativa enquadra-se na Política de Biodiversidade do Grupo, na qual são assumidos os objetivos de contribuir para aprofundar o conhecimento científico e promover a melhoria dos ecossistemas naturais. O projeto, executado pelo CIBIO, conta também com a colaboração institucional do ICNB, e tem ainda como parceiros a SAIP, a TAP e a EDIA. A nível internacional, o projecto envolve investigadores dos países dadores das aves, a Finlândia e a Suécia, e tem a estreita colaboração de investigadores espanhóis e britânicos. Em Inglaterra foi realizado com êxito o primeiro projecto de reintrodução da espécie na Europa, e um projeto similar tem vindo a ser desenvolvido em Espanha, com elevado sucesso desde 2003.

Será que a recolonização do Alqueva não se poderia dar naturalmente?

A recolonização espontânea nos habitats tradicionais é improvável devido aos fatores referidos (perg. 10) e a única solução passa por uma “ajuda” necessária para que a natureza faça o seu papel.
O objetivo deste projeto é restabelecer uma população viável de águia pesqueira ou guincho (Pandion haliaetus) em Portugal continental, com o fim de favorecer a expansão da população mediterrânica ameaçada, reduzindo o seu risco de extinção.
A albufeira do Alqueva, para além de reunir condições favoráveis ao restabelecimento de uma população auto-sustentável de águia pesqueira, serve também de “catalisador” ao processo de reintrodução da água pesqueira ao nível ibérico e complementarmente ao projeto espanhol, contribuindo assim para que um dia a águia pesqueira volte a habitar novamente nas escarpadas falésias da costa alentejana e volte a acompanhar os pescadores junto ao mar.

Porquê o Alqueva e, especificamente, a Herdade do Roncão?

 

Foi escolhida a Herdade do Roncão, no Alqueva, porque esta oferecia todas as condições físicas que garantem as componentes técnicas e científicas necessárias à implementação do projeto
As condições físicas para a viabilidade do projeto já existiam na albufeira do Alqueva.
Após a avaliação e visita in loco aos possíveis locais de libertação, pela equipa técnico-científica que acompanha este projeto, como sejam: o estuário do Tejo, o estuário do Sado e a albufeira do Alqueva, considerou-se que a Albufeira de Alqueva era o local mais favorável ao restabelecimento de uma população auto-sustentável de águia pesqueira.
Esta escolha deveu-se também ao fato de que este local garantia não só os Critérios para reintroduções e translocações, segundo a *IUCN, como também as condições logísticas inerentes ao próprio projeto.

*IUCN – International Union for Conservation of Nature

Porque é que as águias foram trazidas tão pequenas?

O hacking constitui a técnica mais eficaz para a recuperação de populações de aves de rapina e consiste na criação de juvenis em semi-liberdade, em ninhos artificiais semelhantes aos naturais. O objetivo é que os juvenis translocados considerem a área de libertação como área natal, retornando, para nela se reproduzirem, devido ao comportamento *filopátrico da espécie.
O sucesso desta técnica deve-se precisamente ao fato de se usarem juvenis pois só se consegue que considerem a área de libertação como natal (imprinting), se forem trazidos ainda juvenis.

 *filopatria é a tendência, existente em alguns animais que procedem a migrações, para regressar a alguns locais específicos para se alimentarem ou procriarem; fidelidade a um local

As águias pesqueiras vieram da Escandinávia ainda bebés. Não corremos o risco de as águias não suportarem o calor alentejano?

As águias pesqueiras europeias migram para as áreas de invernada em África, entre Agosto e Outubro, após a época de reprodução, e de volta para as zonas de criação entre Fevereiro e Maio. Ao contrário do que se supunha anteriormente, os indivíduos das populações mediterrânicas também empreendem movimentos migratórios, embora menos amplos. Parte da população europeia inverna na Península Ibérica, sobretudo em ambientes costeiros estuarinos, mas também em albufeiras de barragens interiores.
Pelo descrito, o calor não parece ser problema para esta espécie, para além de que o Alentejo foi o último reduto desta espécie em Portugal.

Qual é a altura de serem libertadas?

A altura de serem libertadas está condicionada pelo estado de maturidade e crescimento das *rectrizes caudais. Quando estas se encontram quase totalmente desenvolvidas, permitindo a colocação dos emissores caudais, os juvenis estão prontos para serem libertados.

 *rectrizes são as penas da cauda das aves, próprias para dirigirem o voo